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Em defesa da filosofia

Escrito por master Ligado . Publicado em ARTIGOS

Filosofiapor Maurício Abdalla

https://diplomatique.org.br/

Imagem por Hey Paul Studios

A Filosofia tem sofrido golpes fatais. Querem-na fora das escolas e das universidades, monopolizada por pseudofilósofos com agendas fundamentalistas e de extrema direita, com reflexões rasas e associações falsas de ideias.

A Filosofia não se identifica com nenhuma das tantas profissões e saberes específicos que se formam nos cursos superiores. Quem se forma em Filosofia não recebe uma capacitação prática e técnica. Formar-se em Filosofia é ser introduzido no mundo da razão com a missão de fazer dela o seu instrumento de vida e trabalho, sem, obviamente fechar-se a outras dimensões da vida e às outras faculdades que caracterizam a essência multidimensional do ser humano. Em realidade, a razão só cumpre corretamente sua função quando é compreendida como uma parte em interação sistêmica dentro de uma totalidade que é o ser humano, que, por sua vez, é parte de uma totalidade sistêmica que é o próprio universo.

Seja como professor, pesquisador, escritor, ou apenas como cidadãos e cidadãs que exercem distintas funções, os filósofos e as filósofas devem ter a razão como arma ou martelo (a metáfora é à escolha), sem as quais o soldado ou o ferreiro não executam seu trabalho.

Há, no entanto, distintas maneiras de se lidar com a razão. Gostaria de destacar três delas, nomeando-as de maneira livre, apenas para efeito de exposição, sem pretensão de fazer uma taxonomia da racionalidade ou de propor novos termos para o léxico filosófico.

Chamemos a primeira de razão vaidosa. Trata-se do uso da lógica, das inferências, dos conceitos dos grandes pensadores, do discurso bem elaborado e rebuscado da tradição filosófica e da linguagem esotérica, apenas para a criação textual ou discursiva que impressiona, que confere ao orador ou escritor a aura de intelectual erudito ou de acadêmico ultraprodutivo, julgado e sacramentado apenas pelos parâmetros quantitativos de avaliação da produtividade acadêmica.

A razão vaidosa não parte de problemas, não ilumina caminhos, não projeta sua imagem sobre o mundo e nem recebe dele o seu conteúdo. Como Narciso, sua imagem se volta para si mesma, para contemplar-se e exibir-se. A exibição de si mesma é, portanto, a única ponte que a liga aos outros. Por isso, é um uso solitário e individualista da razão.

Para os que assim lidam com a razão, pouco importa quantos leram os textos produzidos, quantos se iluminaram por suas reflexões e as usaram para entender seu mundo, ou quantos problemas da realidade foram compreendidos à luz de seus conceitos. À razão vaidosa só importa exibir a quantidade e a complexidade dos títulos do que produz e a classificação dos meios ranqueados que os veiculam. Ela mira apenas a si mesma e o mundo acaba reduzido a um limitado palco ou passarela, onde se representa um papel ou se exibe as modas em desfile. Os limites desse palco ou passarela quase sempre se confundem com os limites do espaço acadêmico. O mundo além se transforma em um universo paralelo, que pouco ou nada tem a ver com a racionalidade da Filosofia e dos demais saberes acadêmicos.

A razão vaidosa é a grande sedutora do meio acadêmico e propaga-se com maior facilidade no terreno da Filosofia. Sua presença endêmica nas universidades faz com que tenhamos, hoje, uma produção acadêmica tão vasta e bela, mas um mundo real tão restrito e feio em termos de produção de conhecimento e de uso da racionalidade.

A razão vaidosa fala para si mesma, guarda-se para seu próprio engrandecimento. E, enquanto abarrotamos as universidades com conceitos, reflexões, artigos, seminários, teses, etc. o irracionalismo e o fundamentalismo ganham espaço no mundo da política e das relações sociais, apropriando-se efetivamente do mundo real do qual a razão vaidosa se esqueceu.

Quando prevalece o uso vaidoso da razão, a universidade se converte em uma espécie de Elysyum, para usar uma metáfora hollywoodiana, para onde querem ir os que desejam fugir do mundo real. Enquanto isso, todos afundamos no lodo da barbárie teórica e prática que tomou conta do nosso país e que mostrou sua força nas últimas eleições.

É possível que tenha sido a respeito desse tipo de uso da razão que ironizou Erasmo de Rotterdam em seu Elogio da Loucura. Disse ele sobre Sócrates:

“Tendo passado toda a vida a raciocinar em torno das nuvens e das ideias, ocupando-se em medir o pé de uma pulga e se perdendo em admirar o zumbido do pernilongo, descuidou-se esse filósofo do estudo e do conhecimento dos homens, bem como da arte sumamente necessária de se adaptar a eles. Aí tendes, nesse retrato, o que também diz respeito a muitos dos nossos.”

Repito, para assumir como minha, a frase final de Erasmo: “Aí tendes, nesse retrato, o que também diz respeito a muitos dos nossos”.

Chamemos, agora, o segundo uso da razão de razão cindida. Como mencionei anteriormente, a razão só adquire sentido quando concebida como parte de uma totalidade sistêmica. Como tal, ela não é uma peça independente que, colocada em contato com outras em um mecanismo funcional, faz mover o todo. Na verdade, ela só é o que é, em sua própria constituição particular, em função da interação com as demais dimensões da totalidade complexa que é o ser humano em interação com o universo.

Assim, isolar a razão da arte, da poesia, da música, dos sentimentos, das paixões, da mística, da fé, do prazer, do desejo e de outras tantas dimensões do ser humano multidimensional é provocar uma cisão que, ao mesmo tempo em que separa a razão da totalidade, provoca também a sua morte. A razão não é apenas parte do todo. Ela se realiza (ou seja, existe como algo real) apenas como parte integrante de uma totalidade que a subsume, conferindo-lhe sentido e função.

Sabemos como a frieza da razão calculista e da pura lógica – muitas vezes convertida erroneamente em razão “científica” – produziu em muitas consciências a visão de um mundo desencantado, sem beleza, sem sentido e, mais gravemente, sem apelo ao cuidado essencial com o que é Outro (a natureza e os demais seres além de mim), como nos recorda Leonardo Boff.

Por meio do uso cindido da razão, o universo passa a ser concebido como algo sem vida, pura matéria a ser estudada, convertida em cálculos e equações, apropriada, usada e descartada. O outro ser humano se torna apenas um outro com quem preciso me relacionar contingencialmente pelo fato casual de compartilharmos o mesmo espaço e termos interesses confluentes ou divergentes. A essencialidade do relacionamento com o Outro na própria constituição do que é o humano se perde na fria análise calculista, estratégica e instrumental da razão cindida. A propósito, a razão instrumental sobre a qual falavam os filósofos da Escola de Frankfurt só existe em função da cisão da razão de sua integralidade constituinte.

Ao cindir a razão da totalidade universal da qual o ser humano é também parte, os problemas humanos, decorrentes de nossas relações inter-humanas e com a natureza, foram diluídos em um conjunto de “forças cegas” da natureza, implacáveis e eternas e pretensamente conhecidas pela razão científica.

Assim, não haveria propriamente problemas humanos passíveis de serem compreendidos e resolvidos à luz do pensamento filosófico e de outras formas de saber e conhecimento, mas apenas a justificação naturalista da forma como nos organizamos social e economicamente e de como nos relacionamos predatoriamente com o ecossistema. E à filosofia restaria apenas o exercício exegético, hermenêutico e crítico-literário de leitura de textos de autores consagrados e de escrita sobre eles. Nada mais.

Alguns autores da contemporaneidade confundiram a razão cindida com a própria razão. Hoje, um considerável número de filósofos e filósofas assesta sua artilharia contra a própria racionalidade, confundindo-a com seu uso espúrio e equivocado de uma razão que foi cindida em função dos interesses do sistema econômico que prevaleceu na modernidade.

Esse sistema, ao mesmo tempo em que se impunha materialmente, forjou uma racionalidade própria, com as características teóricas e conceituais que o reproduziam e sustentavam no plano filosófico e científico, e uma subjetividade moldada a sua forma de ser.

Porém, ao rejeitar a razão em si mesma, em nome de uma pretensa resistência ou subversão à subjetividade construída pela predominância da razão cindida, esses filósofos agem como soldados que, em uma guerra, ao invés de lançarem-se à batalha contra o inimigo, ocupam-se em destruir as armas que poderiam usar para esse objetivo, supondo-as com defeito de fabricação antes de tentar usá-las corretamente.

O terceiro uso da razão que desejo destacar é a razão integral e emancipatória. Essa forma de lidar com a racionalidade compreende que o objeto da razão não podem ser os conceitos que ela cria para entender e dar sentido ao mundo. Por óbvio, se os conceitos são criados pela razão para dar inteligibilidade ao mundo, o papel da razão não pode ser usar conceitos para compreender os próprios conceitos.

Seria como se se concebessem os óculos como um objeto apenas para ser contemplado com as vistas que ele deveria ajudar a enxergar. Ou como espelhos colocados de frente um para o outro. Nessa disposição, os espelhos refletem-se a si mesmos ao infinito. Assim é a razão que se limita a pensar conceitos e a filosofia que se limita a entender o pensamento de autores.

O filósofo que não compreende a integralidade da racionalidade filosófica torna-se especialista em pensamento alheio, mas cego para o objeto que foi pensado pelos autores, ignorante sobre o mundo que o rodeia e incapaz de apresentar o que poderia ser o seu próprio pensamento sobre algum objeto real, inspirado em todo o acervo de pensamento da história da filosofia.

A razão com a qual a filosofia deve trabalhar tem como elemento constituinte de sua integralidade o mundo real, com o qual ela interage receptiva e ativamente.  Não se trata de um mundo linguístico, conceitual, ficcional, ideal, mas do mundo do cotidiano, das lidas diária de homens e mulheres reais, que precisam cuidar de seus corpos para manterem a sua essência, ou seja, a sua vida. É um mundo contraditório, complexo, composto de outros seres humanos em relação e de uma natureza da qual dependemos e fazemos parte.

É o mundo de pessoas exploradas e oprimidas, de tragédias humanas e ecológicas provocadas pela ganância do capital, como os crimes da Vale em Mariana e Brumadinho, a desertificação verde pela monocultura do eucalipto, a voracidade cruel da indústria de petróleo e das corporações financeiras que destroem a democracia, planejam e financiam golpes de estado, massacram países e impõem suas normas a todos. É o mundo da indústria de agroquímicos, fármacos e alimentos processados que nos envenenam a cada dia e corroem nossos corpos. É o mundo de pessoas sem teto e sem alimento, dos transportes lotados, do trabalho sem compensação, da violência contra os negros, mulheres e homossexuais, do descaso com os idosos e portadores de deficiência, do etnocídio indígena, da manipulação das leis o do processo jurídico para fins políticos e de tantas outras realidades, impossíveis de serem todas citadas.

Neste mundo, as ideias, o conhecimento, os mitos, as verdades, os desejos, os sonhos, a fantasia, têm sido manipulados para se construir um suporte ao sistema no campo subjetivo, de forma que ele se reproduza e perpetue sem questionamentos e críticas.

Esse é o mundo que integra a totalidade à qual a razão pertence e que se deve tornar o conteúdo e objeto da filosofia.

 

Hegel, na Enciclopédia das ciências filosóficas, nos ensina que “o conteúdo da filosofia é o mundo real, o mundo externo e interno da consciência – isto é, que o seu conteúdo é a realidade efetiva” (Wirklichkeit, no alemão). Não é, portanto, o mundo bem estruturado dos conceitos, mas o mundo contraditório de nossa realidade vivida.

Descartes, no Discurso do método, dizia que os filósofos que trabalham apenas com os conceitos de autores “São como a hera, que não sobe mais alto que as árvores que a sustentam, e que muitas vezes torna a descer, depois de haver alcançado o topo. Pois tenho a impressão de que também voltam a descer – ou seja, tornam-se de certa maneira menos sábios do que se se abstivessem de estudar – aqueles que, não satisfeitos de saber tudo o que é inteligivelmente explicado no seu autor, querem, além disso, encontrar nele a solução de muitas dificuldades, acerca das quais [ele] nada declarou e nas quais talvez jamais pensou”.

Spinoza, em seus Pensamentos metafísicos, diz que não se admira “de que filósofos presos ao verbalismo e à gramática incidam em (…) erros, pois eles julgam as coisas pelos nomes [ou seja, os conceitos] e não os nomes pelas coisas”. Aplicam o conceito a um mundo que não conhecem, ao invés de instruírem os conceitos pelo conhecimento da coisa.

Sartre, em O existencialismo é um humanismo, nos alerta de que a filosofia, na contemporaneidade, é novamente chamada a ocupar o seu espaço na praça pública, onde nasceu e deve se manter.

Por fim, Merleau Ponty, no seu prefácio de A fenomenologia da percepção diz que “A verdadeira filosofia consiste em reaprender a ver o mundo”.

À Filosofia cabe a destruição conceitual das bases que sustentam a enganação e a ideologia em função de interesses. Ela é crítica em sua essência e, como tal, deve levar à nossa emancipação.

Pensemos em alguns elementos deste mundo que devem despertar a atenção dos filósofos. Só é possível aqui destacar os que adquiriram relevo nos últimos anos e listá-los sem pretensão de uma classificação exaustiva.

Temos sido testemunhas da falta de racionalidade em todas as dimensões da política, de uma mídia ideologizada e manipuladora de informações e opiniões, da indústria de falsas notícias, da manipulação ideológica, conceitual e teórica das consciências da população por diversos meios bancados pelos agentes financeiros mais gananciosos que já existiram na história.

Ao mesmo tempo, o obscurantismo fundamentalista tem ocupado o espaço da política, da educação e do debate público, ameaçando-nos com um tempo de trevas caso não nos movamos com agilidade e competência.

Tudo isso ocorre em um quadro em que a natureza e o ser humano sofrem agressões injustificáveis e intoleráveis, em função unicamente do enriquecimento estratosférico de apenas 1% da população mundial.

Quem pensa que nada disso tem a ver com a Filosofia pode querer estar com ela, mas a Filosofia jamais estará com ele. Nem os filósofos julgados mais obscuros e abstratos deixaram de pensar, cada um a seu modo, os problemas de seu mundo.

Quem se acha sábio (ou amigo da sabedoria), mas não é capaz de sentir a dor da Terra e dos homens e mulheres que a habitam, trabalha com a razão vaidosa ou a razão cindida, mas não com a razão integral que manteve viva a Filosofia na história.

A nossa faculdade raciocinativa e a racionalidade que é essência da Filosofia devem ser movidas por elementos não racionais, como a sensibilidade, a indignação, o amor, a solidariedade, e tantos outros, tanto quanto as complexas operações lógicas e matemáticas dos computadores só funcionam movidas pela energia elétrica. Retire o mais moderno computador de uma simples fonte de energia e toda sua capacidade de processamento afunda na mera potência.

A energia dos verdadeiros filósofos e filósofas para trabalhar com a razão vem dos outros elementos da multidimensionalidade humana. Vem do espanto diante do mundo, da admiração do que é belo, da contemplação mística do mistério do universo e dos seres vivos, do amor ao Outro, da indignação e insatisfação com a realidade vivida, da revolta com as estruturas que edificam a sociabilidade, do medo e da angústia diante da vida, da morte e do destino… Sem isso o filósofo é como um computador fora da tomada, mesmo com a memória repleta de todas as informações retiradas dos livros clássicos.

Por isso, a razão filosófica deve ser integral e emancipatória. Deve levar-nos à crítica e ao desejo de liberdade. Deve esforçar-se para contribuir na superação de tudo que atenta contra as potencialidades do ser humano e de nosso planeta.

Esse é o apelo de Marx em suas Teses sobre Feuerbach: “Os filósofos até hoje se esforçaram para interpretar o mundo de diferentes maneiras. A questão é transformá-lo.” Marx nos propõe que a transformação do mundo, e não apenas sua interpretação, seja considerada uma questão filosófica.

Sempre houve forças contrárias à razão emancipatória na história, mas agora ela sofre com muito mais violência no quadro atual da política e das relações sociais em tempos de pós-verdade. A Filosofia tem sofrido golpes fatais. Querem-na fora das escolas e das universidades, monopolizada por pseudofilósofos com agendas fundamentalistas e de extrema direita, com reflexões rasas e associações falsas de ideias. Cabe aos filósofos que não se entregarem à razão vaidosa ou à razão cindida serem os protetores da Filosofia fundada na razão integral e emancipatória. A verdadeira tradição crítica da filosofia tem potencial de gerar resistência, questionamento e libertação.

OS filósofos devem estar nas escolas, nas igrejas, nas universidades, nos movimentos sociais, nas redes sociais, nos distintos locais de trabalho, nos jornais e revistas, nas rádios, enfim, em todos os espaços da produção da subjetividade como agentes da racionalidade emancipatória e a voz da filosofia crítica.

Kant, em seu “Resposta à pergunta: O que é o iluminismo”, defendeu a razão emancipatória com a palavra de ordem: sapere aude! Ou seja: ouse saber! Como complemento à exortação kantiana, eu acrescento, hoje, como conclusão desse discurso e como apelo a uma filosofia baseada na razão integral e emancipatória: pugnare aude! Ou seja, ouse lutar!

(Discurso proferido como paraninfo da turma de formandos em Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo, 2019).

 

Maurício Abdalla é professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo

 

por Maurício Abdalla

https://diplomatique.org.br/

Imagem por Hey Paul Studios

 

A Filosofia tem sofrido golpes fatais. Querem-na fora das escolas e das universidades, monopolizada por pseudofilósofos com agendas fundamentalistas e de extrema direita, com reflexões rasas e associações falsas de ideias.

 

 

A Filosofia não se identifica com nenhuma das tantas profissões e saberes específicos que se formam nos cursos superiores. Quem se forma em Filosofia não recebe uma capacitação prática e técnica. Formar-se em Filosofia é ser introduzido no mundo da razão com a missão de fazer dela o seu instrumento de vida e trabalho, sem, obviamente fechar-se a outras dimensões da vida e às outras faculdades que caracterizam a essência multidimensional do ser humano. Em realidade, a razão só cumpre corretamente sua função quando é compreendida como uma parte em interação sistêmica dentro de uma totalidade que é o ser humano, que, por sua vez, é parte de uma totalidade sistêmica que é o próprio universo.

 

 

Seja como professor, pesquisador, escritor, ou apenas como cidadãos e cidadãs que exercem distintas funções, os filósofos e as filósofas devem ter a razão como arma ou martelo (a metáfora é à escolha), sem as quais o soldado ou o ferreiro não executam seu trabalho.

 

Há, no entanto, distintas maneiras de se lidar com a razão. Gostaria de destacar três delas, nomeando-as de maneira livre, apenas para efeito de exposição, sem pretensão de fazer uma taxonomia da racionalidade ou de propor novos termos para o léxico filosófico.

 

Chamemos a primeira de razão vaidosa. Trata-se do uso da lógica, das inferências, dos conceitos dos grandes pensadores, do discurso bem elaborado e rebuscado da tradição filosófica e da linguagem esotérica, apenas para a criação textual ou discursiva que impressiona, que confere ao orador ou escritor a aura de intelectual erudito ou de acadêmico ultraprodutivo, julgado e sacramentado apenas pelos parâmetros quantitativos de avaliação da produtividade acadêmica.

 

A razão vaidosa não parte de problemas, não ilumina caminhos, não projeta sua imagem sobre o mundo e nem recebe dele o seu conteúdo. Como Narciso, sua imagem se volta para si mesma, para contemplar-se e exibir-se. A exibição de si mesma é, portanto, a única ponte que a liga aos outros. Por isso, é um uso solitário e individualista da razão.

 

Para os que assim lidam com a razão, pouco importa quantos leram os textos produzidos, quantos se iluminaram por suas reflexões e as usaram para entender seu mundo, ou quantos problemas da realidade foram compreendidos à luz de seus conceitos. À razão vaidosa só importa exibir a quantidade e a complexidade dos títulos do que produz e a classificação dos meios ranqueados que os veiculam. Ela mira apenas a si mesma e o mundo acaba reduzido a um limitado palco ou passarela, onde se representa um papel ou se exibe as modas em desfile. Os limites desse palco ou passarela quase sempre se confundem com os limites do espaço acadêmico. O mundo além se transforma em um universo paralelo, que pouco ou nada tem a ver com a racionalidade da Filosofia e dos demais saberes acadêmicos.

 

A razão vaidosa é a grande sedutora do meio acadêmico e propaga-se com maior facilidade no terreno da Filosofia. Sua presença endêmica nas universidades faz com que tenhamos, hoje, uma produção acadêmica tão vasta e bela, mas um mundo real tão restrito e feio em termos de produção de conhecimento e de uso da racionalidade.

 

A razão vaidosa fala para si mesma, guarda-se para seu próprio engrandecimento. E, enquanto abarrotamos as universidades com conceitos, reflexões, artigos, seminários, teses, etc. o irracionalismo e o fundamentalismo ganham espaço no mundo da política e das relações sociais, apropriando-se efetivamente do mundo real do qual a razão vaidosa se esqueceu.

 

Quando prevalece o uso vaidoso da razão, a universidade se converte em uma espécie de Elysyum, para usar uma metáfora hollywoodiana, para onde querem ir os que desejam fugir do mundo real. Enquanto isso, todos afundamos no lodo da barbárie teórica e prática que tomou conta do nosso país e que mostrou sua força nas últimas eleições.

 

É possível que tenha sido a respeito desse tipo de uso da razão que ironizou Erasmo de Rotterdam em seu Elogio da Loucura. Disse ele sobre Sócrates:

 

“Tendo passado toda a vida a raciocinar em torno das nuvens e das ideias, ocupando-se em medir o pé de uma pulga e se perdendo em admirar o zumbido do pernilongo, descuidou-se esse filósofo do estudo e do conhecimento dos homens, bem como da arte sumamente necessária de se adaptar a eles. Aí tendes, nesse retrato, o que também diz respeito a muitos dos nossos.”

 

Repito, para assumir como minha, a frase final de Erasmo: “Aí tendes, nesse retrato, o que também diz respeito a muitos dos nossos”.

 

Chamemos, agora, o segundo uso da razão de razão cindida. Como mencionei anteriormente, a razão só adquire sentido quando concebida como parte de uma totalidade sistêmica. Como tal, ela não é uma peça independente que, colocada em contato com outras em um mecanismo funcional, faz mover o todo. Na verdade, ela só é o que é, em sua própria constituição particular, em função da interação com as demais dimensões da totalidade complexa que é o ser humano em interação com o universo.

 

Assim, isolar a razão da arte, da poesia, da música, dos sentimentos, das paixões, da mística, da fé, do prazer, do desejo e de outras tantas dimensões do ser humano multidimensional é provocar uma cisão que, ao mesmo tempo em que separa a razão da totalidade, provoca também a sua morte. A razão não é apenas parte do todo. Ela se realiza (ou seja, existe como algo real) apenas como parte integrante de uma totalidade que a subsume, conferindo-lhe sentido e função.

 

Sabemos como a frieza da razão calculista e da pura lógica – muitas vezes convertida erroneamente em razão “científica” – produziu em muitas consciências a visão de um mundo desencantado, sem beleza, sem sentido e, mais gravemente, sem apelo ao cuidado essencial com o que é Outro (a natureza e os demais seres além de mim), como nos recorda Leonardo Boff.

 

Por meio do uso cindido da razão, o universo passa a ser concebido como algo sem vida, pura matéria a ser estudada, convertida em cálculos e equações, apropriada, usada e descartada. O outro ser humano se torna apenas um outro com quem preciso me relacionar contingencialmente pelo fato casual de compartilharmos o mesmo espaço e termos interesses confluentes ou divergentes. A essencialidade do relacionamento com o Outro na própria constituição do que é o humano se perde na fria análise calculista, estratégica e instrumental da razão cindida. A propósito, a razão instrumental sobre a qual falavam os filósofos da Escola de Frankfurt só existe em função da cisão da razão de sua integralidade constituinte.

 

Ao cindir a razão da totalidade universal da qual o ser humano é também parte, os problemas humanos, decorrentes de nossas relações inter-humanas e com a natureza, foram diluídos em um conjunto de “forças cegas” da natureza, implacáveis e eternas e pretensamente conhecidas pela razão científica.

 

Assim, não haveria propriamente problemas humanos passíveis de serem compreendidos e resolvidos à luz do pensamento filosófico e de outras formas de saber e conhecimento, mas apenas a justificação naturalista da forma como nos organizamos social e economicamente e de como nos relacionamos predatoriamente com o ecossistema. E à filosofia restaria apenas o exercício exegético, hermenêutico e crítico-literário de leitura de textos de autores consagrados e de escrita sobre eles. Nada mais.

 

Alguns autores da contemporaneidade confundiram a razão cindida com a própria razão. Hoje, um considerável número de filósofos e filósofas assesta sua artilharia contra a própria racionalidade, confundindo-a com seu uso espúrio e equivocado de uma razão que foi cindida em função dos interesses do sistema econômico que prevaleceu na modernidade.

 

Esse sistema, ao mesmo tempo em que se impunha materialmente, forjou uma racionalidade própria, com as características teóricas e conceituais que o reproduziam e sustentavam no plano filosófico e científico, e uma subjetividade moldada a sua forma de ser.

 

Porém, ao rejeitar a razão em si mesma, em nome de uma pretensa resistência ou subversão à subjetividade construída pela predominância da razão cindida, esses filósofos agem como soldados que, em uma guerra, ao invés de lançarem-se à batalha contra o inimigo, ocupam-se em destruir as armas que poderiam usar para esse objetivo, supondo-as com defeito de fabricação antes de tentar usá-las corretamente.

 

O terceiro uso da razão que desejo destacar é a razão integral e emancipatória. Essa forma de lidar com a racionalidade compreende que o objeto da razão não podem ser os conceitos que ela cria para entender e dar sentido ao mundo. Por óbvio, se os conceitos são criados pela razão para dar inteligibilidade ao mundo, o papel da razão não pode ser usar conceitos para compreender os próprios conceitos.

Seria como se se concebessem os óculos como um objeto apenas para ser contemplado com as vistas que ele deveria ajudar a enxergar. Ou como espelhos colocados de frente um para o outro. Nessa disposição, os espelhos refletem-se a si mesmos ao infinito. Assim é a razão que se limita a pensar conceitos e a filosofia que se limita a entender o pensamento de autores.

 

O filósofo que não compreende a integralidade da racionalidade filosófica torna-se especialista em pensamento alheio, mas cego para o objeto que foi pensado pelos autores, ignorante sobre o mundo que o rodeia e incapaz de apresentar o que poderia ser o seu próprio pensamento sobre algum objeto real, inspirado em todo o acervo de pensamento da história da filosofia.

 

A razão com a qual a filosofia deve trabalhar tem como elemento constituinte de sua integralidade o mundo real, com o qual ela interage receptiva e ativamente.  Não se trata de um mundo linguístico, conceitual, ficcional, ideal, mas do mundo do cotidiano, das lidas diária de homens e mulheres reais, que precisam cuidar de seus corpos para manterem a sua essência, ou seja, a sua vida. É um mundo contraditório, complexo, composto de outros seres humanos em relação e de uma natureza da qual dependemos e fazemos parte.

 

É o mundo de pessoas exploradas e oprimidas, de tragédias humanas e ecológicas provocadas pela ganância do capital, como os crimes da Vale em Mariana e Brumadinho, a desertificação verde pela monocultura do eucalipto, a voracidade cruel da indústria de petróleo e das corporações financeiras que destroem a democracia, planejam e financiam golpes de estado, massacram países e impõem suas normas a todos. É o mundo da indústria de agroquímicos, fármacos e alimentos processados que nos envenenam a cada dia e corroem nossos corpos. É o mundo de pessoas sem teto e sem alimento, dos transportes lotados, do trabalho sem compensação, da violência contra os negros, mulheres e homossexuais, do descaso com os idosos e portadores de deficiência, do etnocídio indígena, da manipulação das leis o do processo jurídico para fins políticos e de tantas outras realidades, impossíveis de serem todas citadas.

 

Neste mundo, as ideias, o conhecimento, os mitos, as verdades, os desejos, os sonhos, a fantasia, têm sido manipulados para se construir um suporte ao sistema no campo subjetivo, de forma que ele se reproduza e perpetue sem questionamentos e críticas.

 

Esse é o mundo que integra a totalidade à qual a razão pertence e que se deve tornar o conteúdo e objeto da filosofia.

 

Hegel, na Enciclopédia das ciências filosóficas, nos ensina que “o conteúdo da filosofia é o mundo real, o mundo externo e interno da consciência – isto é, que o seu conteúdo é a realidade efetiva” (Wirklichkeit, no alemão). Não é, portanto, o mundo bem estruturado dos conceitos, mas o mundo contraditório de nossa realidade vivida.

 

Descartes, no Discurso do método, dizia que os filósofos que trabalham apenas com os conceitos de autores “São como a hera, que não sobe mais alto que as árvores que a sustentam, e que muitas vezes torna a descer, depois de haver alcançado o topo. Pois tenho a impressão de que também voltam a descer – ou seja, tornam-se de certa maneira menos sábios do que se se abstivessem de estudar – aqueles que, não satisfeitos de saber tudo o que é inteligivelmente explicado no seu autor, querem, além disso, encontrar nele a solução de muitas dificuldades, acerca das quais [ele] nada declarou e nas quais talvez jamais pensou”.

 

Spinoza, em seus Pensamentos metafísicos, diz que não se admira “de que filósofos presos ao verbalismo e à gramática incidam em (…) erros, pois eles julgam as coisas pelos nomes [ou seja, os conceitos] e não os nomes pelas coisas. Aplicam o conceito a um mundo que não conhecem, ao invés de instruírem os conceitos pelo conhecimento da coisa.

 

Sartre, em O existencialismo é um humanismo, nos alerta de que a filosofia, na contemporaneidade, é novamente chamada a ocupar o seu espaço na praça pública, onde nasceu e deve se manter.

 

Por fim, Merleau Ponty, no seu prefácio de A fenomenologia da percepção diz que “A verdadeira filosofia consiste em reaprender a ver o mundo”.

 

À Filosofia cabe a destruição conceitual das bases que sustentam a enganação e a ideologia em função de interesses. Ela é crítica em sua essência e, como tal, deve levar à nossa emancipação.

 

Pensemos em alguns elementos deste mundo que devem despertar a atenção dos filósofos. Só é possível aqui destacar os que adquiriram relevo nos últimos anos e listá-los sem pretensão de uma classificação exaustiva.

 

Temos sido testemunhas da falta de racionalidade em todas as dimensões da política, de uma mídia ideologizada e manipuladora de informações e opiniões, da indústria de falsas notícias, da manipulação ideológica, conceitual e teórica das consciências da população por diversos meios bancados pelos agentes financeiros mais gananciosos que já existiram na história.

 

Ao mesmo tempo, o obscurantismo fundamentalista tem ocupado o espaço da política, da educação e do debate público, ameaçando-nos com um tempo de trevas caso não nos movamos com agilidade e competência.

 

Tudo isso ocorre em um quadro em que a natureza e o ser humano sofrem agressões injustificáveis e intoleráveis, em função unicamente do enriquecimento estratosférico de apenas 1% da população mundial.

 

Quem pensa que nada disso tem a ver com a Filosofia pode querer estar com ela, mas a Filosofia jamais estará com ele. Nem os filósofos julgados mais obscuros e abstratos deixaram de pensar, cada um a seu modo, os problemas de seu mundo.

 

Quem se acha sábio (ou amigo da sabedoria), mas não é capaz de sentir a dor da Terra e dos homens e mulheres que a habitam, trabalha com a razão vaidosa ou a razão cindida, mas não com a razão integral que manteve viva a Filosofia na história.

 

A nossa faculdade raciocinativa e a racionalidade que é essência da Filosofia devem ser movidas por elementos não racionais, como a sensibilidade, a indignação, o amor, a solidariedade, e tantos outros, tanto quanto as complexas operações lógicas e matemáticas dos computadores só funcionam movidas pela energia elétrica. Retire o mais moderno computador de uma simples fonte de energia e toda sua capacidade de processamento afunda na mera potência.

 

A energia dos verdadeiros filósofos e filósofas para trabalhar com a razão vem dos outros elementos da multidimensionalidade humana. Vem do espanto diante do mundo, da admiração do que é belo, da contemplação mística do mistério do universo e dos seres vivos, do amor ao Outro, da indignação e insatisfação com a realidade vivida, da revolta com as estruturas que edificam a sociabilidade, do medo e da angústia diante da vida, da morte e do destino… Sem isso o filósofo é como um computador fora da tomada, mesmo com a memória repleta de todas as informações retiradas dos livros clássicos.

 

Por isso, a razão filosófica deve ser integral e emancipatória. Deve levar-nos à crítica e ao desejo de liberdade. Deve esforçar-se para contribuir na superação de tudo que atenta contra as potencialidades do ser humano e de nosso planeta.

 

Esse é o apelo de Marx em suas Teses sobre Feuerbach: “Os filósofos até hoje se esforçaram para interpretar o mundo de diferentes maneiras. A questão é transformá-lo.” Marx nos propõe que a transformação do mundo, e não apenas sua interpretação, seja considerada uma questão filosófica.

 

Sempre houve forças contrárias à razão emancipatória na história, mas agora ela sofre com muito mais violência no quadro atual da política e das relações sociais em tempos de pós-verdade. A Filosofia tem sofrido golpes fatais. Querem-na fora das escolas e das universidades, monopolizada por pseudofilósofos com agendas fundamentalistas e de extrema direita, com reflexões rasas e associações falsas de ideias. Cabe aos filósofos que não se entregarem à razão vaidosa ou à razão cindida serem os protetores da Filosofia fundada na razão integral e emancipatória. A verdadeira tradição crítica da filosofia tem potencial de gerar resistência, questionamento e libertação.

 

OS filósofos devem estar nas escolas, nas igrejas, nas universidades, nos movimentos sociais, nas redes sociais, nos distintos locais de trabalho, nos jornais e revistas, nas rádios, enfim, em todos os espaços da produção da subjetividade como agentes da racionalidade emancipatória e a voz da filosofia crítica.

 

Kant, em seu “Resposta à perguntaO que é o iluminismo”, defendeu a razão emancipatória com a palavra de ordem: sapere aude! Ou seja: ouse saber! Como complemento à exortação kantiana, eu acrescento, hoje, como conclusão desse discurso e como apelo a uma filosofia baseada na razão integral e emancipatória: pugnare aude! Ou seja, ouse lutar!

 

(Discurso proferido como paraninfo da turma de formandos em Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo, 2019).


Maurício Abdalla é professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo

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