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Quem é mesmo o analfabeto?

Escrito por master Ligado . Publicado em ARTIGOS

Lula e EsquivelOmar dos Santos*

Recebi, pelo celular, uma dessas mensagens que frequentemente a “nova classe de analistas político e econômico, surgida na esteira do crescimento da internet e especializada em falar mal do Brasil e dos brasileiros que discordam de suas “palavras de sabedoria”, bebidas nas fontes dos inúmeros doutores e mestres das cátedras da Society Net University, – em estrangeiro para ficar mais chique – mensagem que aqui irei narrar. A referida mostra o mapa do mundo com a notação do número de ganhadores do Prêmio Nobel distribuídos por cada país que já fez jus a tal honraria.

Abaixo do mapa há um texto que explicita a ideia central da mensagem, concluindo, de forma lacônica, o seguinte ensinamento:

“Um povo que vota num analfabeto para Presidente da República não pode ganhar o Prêmio Nobel”.

Já de início, o autor, como bom especialista em denegrir a imagem de nosso país que é, mostra toda a sua tendenciosidade. Primeiro ele compara países com continentes, como é o caso de comparar o Brasil com o continente asiático, e segundo, ao apresentar a quantidade de ganhadores do Prêmio por país, só o Brasil está marcado com 0 (zero), dando a ideia de que só os brasileiros nunca conquistaram o mesmo, o que encerra duas mentiras, a primeira é que a maioria dos países não o ganharam e a segunda é que pelo menos dois brasileiros já foram honrados com o Prêmio. Não se sabe se ele transgride a verdade por ignorância sobre o assunto ou se por maldade, ou pelas duas coisas. Mas isto faz parte da fanfarrice dessa gente.

Obviamente que o criador da mensagem, sabendo da capacidade intelectual de seus replicadores, os quais, para empregar uma expressão da militância sindical, chamarei de “correias de transmissão ignaras e inocentes”, refere-se ao fato de Lula ter sido eleito Presidente da República por dois mandatos e ter conseguido eleger a Presidenta Dilma por mais dois. Um fato que causa, até hoje e penso que para sempre, profunda amargura em nossas elites. Não fora isso, como explicar a ignomínia e a ferocidade que uniu as elites e os três poderes da república brasileira para engendrar e perpetrar, de uma só vez, o golpe na Constituição do Brasil, na Presidenta Dilma e no Presidente Lula.

Devo confessar que não é sem contrariedade que escrevo sobre esse tipo de publicação, pois penso que os leitores deste site não precisam conhecer tal espurcícia, mas aproveito a oportunidade para chamá-los à reflexão de algumas questões subjacentes a ela.

De início, fica claro o desconhecimento do autor sobre os propósitos e as finalidades do Prêmio Nobel e dos critérios de sua escolha.

O Prêmio foi criado para concretizar o último desejo de Alfred Nobel, o inventor da pólvora, que desejava reconhecer pessoas e instituições que realizam pesquisas e descobertas ou que fazem notáveis contribuições para a humanidade nos campos da Física, Química, Fisiologia, Medicina, Literatura e Paz.

Em toda a história do Prêmio Nobel, ele já foi concedido 555 vezes, laureando 856 pessoas entre (homens e mulheres) e organizações.

Amplamente considerado como o mais prestigioso prêmio disponível nos campos acima citados, a sua concessão obedece a critérios técnicos e científicos, mas sofre fortes influências do poder político, econômico e cultural do país do candidato, bem como da pressão popular de quem o apoia.

Alguns familiares de Alfred Nobel, notadamente seu sobrinho bisneto Peter Nobel, não aceitam que o Prémio Nobel de Ciências Económicas seja referido como um Nobel, pois o consideram como uma espécie de "campeonato de relações públicas para economistas" algo impensável por Alfred Nobel, que desprezava pessoas para quem os lucros são mais importantes do que o bem-estar da sociedade. Prova de que o pretenso caráter técnico e científico da escolha do ganhador não é tão puro como se quer.

Outra questão que parece ser desconhecida pelo autor da mensagem é o fato de que apenas 75 países do mundo têm cidadãos ganhadores do Nobel. Ele parece desconhecer que além dos dois brasileiros ganhadores do mesmo, Peter Brian Medawar e Edmundo Manzini de Souza, outros conterrâneos já foram indicados para o mesmo ao longo da história. Para não me alongar cito alguns deles: Afrânio de Melo Franco, Barão do Rio Branco, Oswaldo Aranha, Chico Xavier, Betinho, Maria da Penha. Para o desespero de nossa elite pequeno burguesa, Luiz Inácio Lula da Silva é o último indicado.

Cheguemos agora ao fato central desta reflexão, a tresloucada perseguição que as classes dominantes brasileiras têm movido contra o Lula. Para tal, ela e seus chaleiras se utilizam, sem nenhuma cerimônia, de mentiras, trapaças e deslealdades para tentar, da maneira mais idiota, estabelecer relação de causa e efeito entre o nível de escolaridade de Lula e o desenvolvimento cultural econômico e científico do país. Tivesse algum sentido tal idiotice, teríamos que concordar que em épocas, e essas não foram poucas, em que o país foi governado por ilustres doutores acadêmicos, formados nas mais respeitadas universidades do mundo, o Brasil já teria superado o atraso socioeconômico e tecnológico em que está submetido desde seu nascimento como nação. Ao contrário, nunca em sua história, o nosso país exerceu tanta influência econômica, política e cultural no mundo como o fez durante o governo do “analfabeto”. Só para citar alguns exemplos, lembramos a expressão “Você é o cara” e o papel decisivo desempenhado pelo Brasil na reunião da Assembleia Geral da ONU para resolver a crise da produção atômica pelo Irã.

Mas apesar da patetice da tentativa de achincalhar o Presidente Lula e seu governo, vamos relembrar alguns avanços que o povo brasileiro conquistou nos governos do “analfabeto” e de sua sucessora.

Foi necessário um “Presidente Analfabeto” para que justamente no campo do ensino, o tema que o autor da mensagem critica, houvesse a maior transformação já experimentada pelo povo brasileiro, se não vejamos:

Até 2002 o país tinha 45 universidades federais organizadas em 148 campus/unidades. De 2003 a 2010, foram criadas 09 novas universidades, e 126 campus/unidades, que representam respectivamente 31% e 85% de crescimento.

É importante lembrar que o programa de expansão do Ensino Superior dos governos de Lula e Dilma teve como característica maior sua interiorização, ao contrario das estratégias de todos os governos anteriores que sempre buscaram sua centralização, reduzindo a implantação de universidades federais e estaduais nas capitais e grandes cidades.

Ao lado dessa conquista, merecem destaque os programas ProUni, Fies, Sisu e Sistema de Cotas, implantados e implementados durante esses governos, que viabilizaram o acesso de milhões de estudantes das classes pobre e média baixa ao Ensino Superior. Como sabemos, antes desses programas, esse acesso era extremamente difícil e somente poucos estudantes dessas classes conseguiam escalar as verdadeiras muralhas que a elite brasileira erguia entre eles e o Ensino Superior.

Antes do governo do Presidente Lula, nossas elites política, empresarial e financeira viviam uma contradição que pode ser emblemada pelo ‘pseudo’ dilema da antiga propaganda de um biscoito: “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”. Falo do verdadeiro paradoxo que encerra o discurso de nossas elites que sempre afirmaram que o problema do subdesenvolvimento e do desemprego no Brasil é o despreparo cultural e técnico do povo. Ainda mais. Repetidamente os lideres empresarias e os burocratas de plantão apontam alternativas ancoradas em exemplos de outros países que resolveram a questão pela educação, com a oferta de ensino técnico e tecnológico de qualidade. Não cabe dúvida de que alternativa é correta, sendo a única saída que nos resta para superar o atraso em que vivemos.

Mas porque será que durante todo o Século XX e a primeira década deste, nossos governantes demonstraram tão pouco interesse em melhorar a educação brasileira, sobre tudo o Ensino Técnico?

Vejamos. A primeira escola técnica do Brasil foi fundada em 1909 e o país chega a 2002 com apenas 140 delas. Nos governos de Lula e Dilma foram implantadas 500 novas escolas, totalizando 644 campi, sem contar 02 Cefets, 25 escolas vinculadas a universidades e uma universidade tecnológica.

Estas preocupações com a educação e a formação profissional do povo, sobretudo das classes mais desamparadas do país, sempre fizeram parte dos discursos dos doutores, sociólogos, cientistas, médicos e juristas, os políticos que governaram o Brasil até a primeira década deste século, mas ficou só no discurso. Na prática, essa gente governou e agiu, e de forma intencional, para manter a educação pública, a escola do trabalhador e seus filhos, em absoluto estado de calamidade e precariedade. Essa sempre foi a estratégia adotada pelas classes dominantes para manter o povo apartado do saber e do conhecimento técnico.

As reflexões acima caracterizam que o autor da mensagem que deseja imputar as mazelas da formação educacional do brasileiro ao fato do Presidente Lula não ter diploma universitário, o que ninguém sabe ao certo se é verdade, cria “uma doce contradição”, o analfabeto realiza mais para a educação do que todos os sábios que o antecederam na Presidência da República do Brasil.

Omar dos Santos é professor aposentado. Mora em Basília.

 

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