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Distopia aqui — e agora

Escrito por master Ligado . Publicado em ARTIGOS

ArgelinosO planeta divide-se em duas zonas: uma “civilizada”, onde há um modo de vida a preservar, e outra selvagem, habitada por criaturas que podem ser abatidas para seu próprio bem

Por Nuno Ramos de Almeida
http://outraspalavras.net/

Antes dos comentários nas redes sociais, era o silêncio. Agora, os párias deste mundo são mortos várias vezes: são mortos quando as balas explodem neles e são mortos quando as hordas dos comentadores das redes sociais, instalados nos sofás das nossas cidades “Je Suis”, garantem que “se lhes aconteceu alguma coisa é porque alguma coisa de mal estavam fazendo”. Vamos do silêncio para o barulho, garantindo sempre o mesmo grau de indiferença ideológica, para que o massacre se faça sem grandes contestações. Conto quatro histórias: a primeira passou-se há duas gerações, durante as quais toda a memória foi apagada; uma é filha da guerra sem fim ao terrorismo; as últimas duas acontecem aqui em Portugal. Todas elas remetem para um fato. Nos nossos países ditos civilizados, os únicos humanos somos nós, os burgueses, brancos e que vivemos no meio das cidades. Todo o resto são seres subnormais que não são iguais a nós e cuja morte tem apenas, no máximo, um segundo de atenção e uma eternidade de indiferença.

Chovia em Paris no dia 17 de outubro de 1961. Mais de 30 mil argelinos, homens e mulheres e crianças, acudiram ao centro da Cidade Luz, vestidos com as suas melhores roupas. Os homens levavam os seus casacos e gravatas; as mulheres, os seus vestidos mais bonitos. Todos queriam protestar contra o toque de recolher decretado pelas autoridades para interditar os “franceses-muçulmanos-argelinos” de saírem de suas casas entre as oito e meia da noite e as cinco da manhã. Essa proibição era ilegal. Mas que interessava isso? Na Argélia lutava-se contra os independentistas, todos os árabes eram suspeitos. Paris, a pátria das proclamações dos “Direitos do Homem”. Noventa anos depois do massacre da Comuna de Paris, em plenos anos 60, as ruas foram novamente lavadas pelo sangue, e entre 150 e 300 argelinos foram mortos a tiro pela polícia francesa. Num dos lugares onde os corpos foram largados para serem engolidos pelo Sena, um agente quis imortalizar o momento e escreveu numa parede: “Aqui afogamos os argelinos.”

Foram décadas de silêncio total. Trinta anos depois, um jornalista, Jean-Luc Einaudi, ao lado daqueles que exigiam que fosse quebrado o silêncio sobre a morte dos seus, publicou um livro, A Batalha de Argel, no qual contava o que aconteceu,

O homem que ordenou o massacre foi Maurice Papon. Durante a ocupação nazi da França organizou as deportações de judeus para os campos da morte; no final da guerra, quando previu a derrota, começou a passar informações para a Resistência gaullista. Os nazis perderam a guerra e ele continuou funcionário da República. Da mesma forma que garantiu que 1.560 judeus franceses fossem levados para campos de extermínio, onde foram assassinados e cremados, deu a ordem para que os argelinos fossem massacrados. Tanta dedicação valeu-lhe ser condecorado com a medalha da Légion d’Honneur.

O funcionário exemplar teve o pequeno azar de o seu pecadilho no massacre dos judeus ter sido descoberto. Einaudi aproveitou o seu julgamento, em 1990, para denunciar o massacre de 1961. Resultado: foi processado por Papon por difamação. O jornalista pediu que fossem abertos os arquivos da polícia sobre os acontecimentos, para se poder defender. O pedido foi recusado. Conseguiu que dois funcionários do arquivo testemunhassem ter visto documentos que confirmavam as acusações a Papon. Einaudi foi absolvido no processo. O Estado tratou de abrir um novo processo contra os funcionários que testemunharam. Até agora, o condenado Papon, pelo seu papel como colaborador dos nazis, é o único responsável pelo massacre de 17 de outubro de 1961 — ele morreu em 2007, solto. Einaudi tinha dedicado o seu livro, A Batalha de Paris, a Jeannette Griff, de nove anos, deportada para Auschwitz em 1942, e Fatima Bedar, 15 anos, assassinada pela polícia no massacre de Paris.

No início do seu livro Théorie du Drone, Grégoire Chamayou transcreve os diálogos de uma equipe de comando de um drone armado durante uma missão em que um carro foi destruído pelo veículo não tripulado armado. Estes militares, que atuam a milhares de quilômetros do campo de batalha, acordam de manhã, comem torradas com as suas famílias e depois vão trabalhar em um lugar de onde comandam drones, e perante os dados que recolhem os sensores de sons, os interceptadores de comunicações e as câmaras, decidem se destroem ou não estes alvos. Neste caso, que inicia o livro de Chamayou, foram civis inocentes os homens e mulheres e crianças que morreram, devido à decisão de os liquidar. Para evitar que as estatísticas sejam negativas para os mais de seis mil drones dos EUA, que atuam numa dúzia de países para muitos dos quais não há uma declaração formal de guerra do Congresso dos EUA, as autoridades caracterizam como “combatentes inimigos” todos os homens adultos que sejam alvo de um ataque, estejam armados ou não. O resto são inevitáveis danos colaterais.

O planeta divide-se em duas zonas: uma civilizada, onde há um modo de vida do mundo livre a preservar, e outra selvagem, habitada por criaturas que podem ser abatidas para seu próprio bem. Esta estrutura replica-se, numa escala proporcional, nas nossas próprias zonas civilizadas: as cidades têm zonas de gente de bem e bairros suburbanos para imigrantes, pobres, negros e, portanto, criminosos.

A guerra sem fim ao terrorismo justifica que vivamos numa espécie de estado de exceção permanente em que os direitos, liberdades e garantias podem ser suspensos para preservar a nossa segurança. Mas mesmo antes disso, nas nossas próprias cidades, as pessoas não têm todas os mesmos direitos. Se se é negro, imigrante, pobre ou se vive nos subúrbios espera-se, volto a repetir, que as forças da ordem se comportem de uma forma diferente do que fariam no meio da Avenida de Roma. Como me explicou, numa rede social, um policial: “Essa escória também não se comporta conosco da mesma maneira.”

Em 4 de janeiro de 2009, um agente da polícia matou um rapaz negro de 14 anos. Disparou a arma a 15 centímetros da cabeça de Elson Sanchez, conhecido por Kuku. O relatório da Polícia Judiciária afastou a hipótese de ter havido legítima defesa. O jovem fugia de dentro de um carro roubado. Quando fui ao local, dias depois, em reportagem pela TVI, um toxicodependente que estava na zona afirmou para a câmara que o policial teria dito depois de disparar: “Acabei de dar um tiro nos cornos do preto.”

Segundo uma norma interna para utilização de arma de fogo pelas forças de segurança em Portugal, só é possível disparar se “existir um perigo iminente de morte ou ofensa grave à integridade física do elemento policial ou de terceiros (…) o que justifica o recurso efetivo a arma de fogo contra pessoas”.

No dia 22 de novembro de 2017, a polícia disparou 40 balas contra o Renault Mégane de cor branca em que seguia Ivanice Carvalho da Costa, imigrante brasileira que estava em Portugal há 17 anos e trabalhava no aeroporto. A polícia confundiu a viatura com um Seat da mesma cor suspeito de transportar os autores de um assalto a uma caixa multibanco, usando explosivos.

Imigrante, brasileira, pobre, a família, sem meios, uma semana depois ainda esperava que seu corpo fosse transladado para o Brasil.

Neste mundo podem ser assassinadas milhões de pessoas em países longínquos com a intenção de os democratizar à bomba. Ninguém publica Je Suis Cairo quando são mortos 300 egípcios. Os pobres e os imigrantes podem ser revistados brutalmente e mortos a tiro. Um dia, até os ricos dos condomínios protegidos e dos muros altos e eletrificados do Primeiro Mundo vão entender que a selvageria multiplica a selvageria e apenas a igualdade de direitos pode respeitar a vida.

NRAlmeida

 

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