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POVOS INDÍGENAS - Na Guiana Francesa, a corrida do ouro… e da Bíblia

Escrito por master Ligado . Publicado em ARTIGOS

GuianaEm 25 anos, a Guiana Francesa viu sua população dobrar. Ela se sente negligenciada pela metrópole, da qual depende para tudo, ou quase, e permanece economicamente isolada de seus vizinhos. Mas a porosidade de sua fronteira a torna permeável tanto ao tráfico de ouro como ao proselitismo evangélico. Na linha de frente, os indígenas apostam seu futuro como povo

Por: Elven Sicard
diplomatique.org.br/

Com reivindicações próprias, as organizações indígenas estiveram plenamente presentes na movimentação social ocorrida na primavera deste ano na Guiana Francesa. Sentindo-se esquecidos pelas autoridades públicas, os seis povos originários do território (entre 10 mil e 20 mil pessoas, segundo estimativas) convivem de perto com traficantes de ouro e sofrem a devastação do garimpo, tanto ambiental como em termos de segurança. Isso é particularmente grave entre os povos do interior, que se sedentarizaram a montante dos principais rios (wayanas no Alto Maroni, wajãpis no Alto Oiapoque e tekos em ambos os rios). Seu problema mais global se traduz em uma taxa de suicídio entre os jovens de oito a dez vezes maior que a média da Guiana Francesa.1 Essa situação, compartilhada em menor grau pelos povos costeiros (galibi, arawak-lokono e palikur), foi trazida a público em 2003, mas levou doze anos para que uma missão fosse enviada para lá.

O relatório parlamentar enviado ao primeiro-ministro em 30 de novembro de 2015 aponta negligências do Estado que vão da falta de acesso a serviços básicos (água encanada, eletricidade, cobertura telefônica, transporte) às falhas do sistema de saúde, passando pela má gestão da dependência em relação a álcool ou drogas e pela contaminação neurotóxica da água e dos peixes por mercúrio, maciçamente utilizado pelos garimpeiros com o objetivo de agregar o metal precioso. Estudos sobre a concentração de mercúrio no cabelo mostraram que “os níveis de exposição crônica a que são submetidas as populações ribeirinhas amazônicas estão entre os mais elevados do mundo”.2

Os parlamentares também falam no dilaceramento da identidade indígena. Os adolescentes das comunidades isoladas wayanas e wajãpis do Alto Maroni e do Alto Oiapoque precisam deixar a família para ir à escola na cidade mais próxima, a várias horas de distância. Ao desenraizamento soma-se a vida em internatos frequentemente sucateados ou com famílias de acolhimento movidas unicamente pelo interesse no ganho financeiro. Para o ensino médio, é preciso ir ainda mais longe, no litoral. Os internatos fecham nos fins de semana, e os jovens são deixados à própria sorte, entregues a seus tormentos.

Autoridades indígenas e associações denunciam que as 37 propostas feitas pelo relatório após o diagnóstico não saíram do papel e veem nisso uma perpetuação da longa indiferença das políticas públicas da Guiana Francesa para com as comunidades indígenas. Em 2004, foi criado o Conselho Consultivo das Populações Ameríndias e Quilombolas,3 mas ele só foi mencionado três vezes pelo Estado, em 2007, e nunca pela Coletividade Territorial da Guiana Francesa (CTG). As organizações indígenas não foram consultadas nem sobre a questão do plano de desenvolvimento da Guiana Francesa, em negociação há vários meses entre a CTG e Paris. Suas opiniões têm pouco efeito, e ela não tem nenhuma disposição orçamentária. A Lei de Igualdade Real no Ultramar, aprovada em fevereiro de 2017, deveria dar-lhe mais peso, por meio de uma personalidade jurídica.

Além do desprezo que pode subsistir na sociedade guianense em relação aos povos originários, eles nem sequer são considerados como tal pela República. Paris sempre se recusou a ratificar a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) relativa aos povos indígenas e tribais, que reconhece seus direitos à terra e à autodeterminação. Organizações de defesa dos direitos indígenas, como a Survival, militam por essa ratificação. Seu princípio foi aprovado em 23 de fevereiro de 2017 pela Comissão Nacional Consultiva de Direitos Humanos, para a qual “o princípio da indivisibilidade da República é compatível com o reconhecimento dos direitos individuais e coletivos dos povos autóctones”.

Um internato assombrado

O campo livre deixado às Igrejas evangélicas norte-americanas aparece ao mesmo tempo como sintoma e causa desse profundo mal-estar, que toma uma dimensão existencial. Seu proselitismo é ainda mais temível pelo fato de apoiar-se na destruição dos saberes ancestrais, recorrendo a uma iconografia do inferno: demônios, juízo final e castigo eterno. “Hoje, indígenas convertidos consideram o xamanismo a encarnação do mal”, relata Alexander Sommer-Schaechtele, secretário-geral da Organização das Nações Autóctones da Guiana Francesa (Onag). “Os evangélicos preenchem um vazio institucional e político. Os representantes políticos eleitos e as associações não estiveram suficientemente presentes.”4 A missão parlamentar destacou as “humilhações e zombarias” dos evangélicos em relação às crenças tradicionais.

As comunidades wayanas do Alto Maroni, no sul da Guiana Francesa, fronteira com o Suriname, são particularmente visadas. Desde abril de 2016, a comunidade vem sendo agitada por “crises de possessão”, que afetam sobretudo os adolescentes. A associação Ações para o Desenvolvimento, Educação e Pesquisa (Ader) identificou 161 casos entre maio e dezembro de 2016 e confirmou que os jovens passavam por um “grande sofrimento psíquico”. Enquanto os médicos, como a doutora Mireille Renaud, diagnosticam crise de hiperventilação,5 as meninas que frequentam a escola colocam a culpa no internato degradado onde moram: ele seria assombrado por um espírito. Nessa região, onde o animismo estrutura amplamente as crenças, os moradores concordam com a explicação dada por elas.

Diante da ausência de respostas da medicina científica, muitos pais voltam-se aos evangélicos, que aparecem como especialistas na “guerra contra os espíritos”. “A confusão entre ‘espíritos’ e ‘demônios’ provoca uma fratura tanto nos rituais como nas relações sociais e no psiquismo: entidades são para ser exorcizadas, não para se negociar com elas”, analisa Marianne Pradem, responsável pela Célula para o Bem-Estar das Populações do Interior (CerMePI), criada pelo governo.

Em maio de 2016, muitos dos novecentos wayanas das aldeias francesas foram a Anapaike, do outro lado do Rio Maroni, que separa a Guiana Francesa do Suriname. O propósito da viagem? Obter ajuda dos pastores locais pertencentes à organização religiosa norte-americana World Team. Vindas às vezes de longe, as famílias ficam ali por várias semanas para poder orar longamente. Sessões de exorcismo às vezes espetaculares marcam os ritos coletivos. Nelas são queimadas, por exemplo, peças de roupa que carregam a “marca do diabo”: camisetas pretas, vermelhas ou que tragam o número 6 – uma grande oportunidade para converter dezenas de pessoas. Porta-voz wayana e conselheiro municipal de Maripasoula, Aiku Amelin se recorda: “Os pais ficavam fragilizados durante as crises; trezentas pessoas foram batizadas”. Entre elas, crianças cujo consentimento parental para isso não havia sido dado.

Os evangélicos aproveitam-se do desconforto crescente. Desde o verão de 2016, o ritmo das conversões teria aumentado significativamente, de acordo com os trabalhadores sociais da Ader, embora a mobilidade através da fronteira torne delicada a quantificação de novos seguidores. Segundo a etnobotânica Marie Fleury, especialista no Alto Maroni, o evangelismo “atinge quase todo mundo nas margens do Maroni”. No fim de 2016, duas igrejas foram construídas do lado francês – uma primeira em aldeias wayanas –, o que integra um fenômeno mais amplo na Guiana Francesa. “As Igrejas evangélicas avançam sobre todo o território e a espiritualidade tradicional”, lamenta Pradem.

A evangelização dessa área do nordeste da Amazônia iniciou-se pelas colônias protestantes da América do Sul: Guiana Britânica (atual Guiana) e Guiana Holandesa (atual Suriname).6 Na década de 1950, missionários protestantes começaram a trazer a “boa palavra” aos povos isolados. Em 1959, a organização Door to Life – que se fundiu com a West Indies Mission (WIM) em 1962 – obteve do governo autônomo do Suriname autorização para explorar os confins do país. O Estado viu nisso uma oportunidade para expandir suas franjas territoriais e ofereceu ajuda por meio da construção de pistas de pouso em várias localidades do sul.

Os evangélicos deram início a um trabalho de estudo linguístico. Em 1963, Walter e Marjorie Jackson, assim como Ivan e Doris Schoen, dois casais norte-americanos, desenvolveram uma transcrição dos fonemas wayanas. Claude e Barbara Leavitt, assim como Morgan e Mary-Jane Jones, fizeram o mesmo com os tiriós, outro povo da região. Rapidamente, eles elaboraram uma tradução rudimentar da Bíblia. Sua estratégia incluía também a formação de catecúmenos locais, muitas vezes convertendo líderes tradicionais. Seu sucesso deve-se principalmente aos serviços prestados à população, no lugar do Estado do Suriname: abastecimento dos dispensários, evacuações de emergência, projetos de desenvolvimento local. Essa estratégia agressiva, tornada possível pela generosidade de fiéis do mundo inteiro (US$ 9 milhões para a World Team em 2016), dá resultado. Em seu site, a organização World Team7 orgulha-se de ter convertido “100% dos tiriós e dos wayanas do Suriname”, estabelecendo assim uma sólida base para partir rumo à evangelização do conjunto dos “povos distantes”.

Mais doações, mais preces

“São seitas”, lança David François, secretário-geral da Federação das Organizações Indígenas da Guiana Francesa. Além do álcool e do tabaco, os movimentos religiosos estabelecem diversas proibições: telefone, internet, camisetas pretas, tatuagens e piercings. Muitos líderes indígenas denunciam também a obrigação de fazer contribuições financeiras. “Quanto mais você dá, mais seu nome é dito durante os sermões”, resume Rachel Merlet, coordenadora territorial da Ader. Isso representa um orçamento considerável para pessoas muitas vezes reduzidas a viver de programas de renda mínima. Eventos religiosos às vezes geograficamente muito distantes pontuam a vida dos fiéis, que precisam utilizar os serviços de transporte pagos oferecidos pelas organizações.

Recomendando que se esqueça o passado, os evangélicos impuseram uma forma de padronização dos costumes: sedentarizarão de populações seminômades, fragmentação do hábitat comunitário em unidades familiares, tentativa de ruptura com o mundo dos espíritos e do xamanismo. “Na América do Norte, massacraram os índios a tiros de fuzil e doenças. Já aqui, eles estão sendo mortos lentamente, com serviços sociais precários, bebidas, mercúrio… e religião”, diz François.

Alguns antropólogos especialistas na região, como Pierre Grenand, nuançam essa constatação de aculturação: “Os wayanas passam por campanhas de evangelização há quase sessenta anos e várias vezes conseguiram se livrar delas. Eu seria cauteloso em prever o resultado da que está em curso”. Sua colega Vanessa Grotti acrescenta: “Mesmo que não existam mais xamãs, o mundo espiritual continua existindo. Eles podem muito bem voltar”. No entanto, até o momento o Estado francês julgou prioritário estruturar uma indústria aurífera legal e “sustentável”, em vez de atender às expectativas dos povos originários. E a impotência e o laxismo da administração em relação aos garimpeiros deixam pouco espaço para a esperança de uma renovação indígena.

*Elven Sicard é jornalista.

1 Aline Archimbaud e Marie-Anne Chapdelaine, “Suicides des jeunes Amérindiens en Guyane française: 37 propositions pour enrayer ces drames et créer les conditions d’un mieux-être” [Suicídio de jovens indígenas na Guiana Francesa: 37 propostas para barrar esse drama e criar condições para uma vida melhor], relatório ao primeiro-ministro, Paris, 30 nov. 2015.

2 Alain Boudou, Jean-Pierre Carmouze e Marc Lucotte (orgs.), Le Mercure en Amazonie. Rôle de l’homme et de l’environnement, risques sanitaires [O mercúrio na Amazônia. Papel do homem e do ambiente, riscos sanitários], IRD Éditions, Bondy, 2001.

3 Os quilombolas – localmente chamados de bushinengués ou noirs marrons –, que na Guiana Francesa somam cerca de 10 mil pessoas, são grupos descendentes de escravos que constituíram comunidades ocultas na floresta depois de fugir do cativeiro. Eles são parte do mosaico que forma a Guiana Francesa, com suas línguas e culturas.

4 Intervenção durante o simpósio sobre os suicídios de indígenas, organizado no Senado francês, em 30 de novembro de 2016.

5 France-Guyane, Caiena, 22 abr. 2016.

6 Joseph F. Conley, Drumbeats That Changed the World [Tambores que mudaram o mundo], William Carey Library Pub, Pasadena (Califórnia), 2000.

7 Resultante da fusão, em 1995, da WIM e da Regions Beyond Missionary Union.

SENTIMENTO DE ABANDONO

No fim de março, a classe política da França metropolitana despertou para a constatação dos terríveis atrasos de desenvolvimento apresentados pela Guiana Francesa, apesar do sucesso econômico do Centro Espacial de Kourou (16% do PIB): 22,3% de desemprego, metade da população abaixo da linha de pobreza, alimentos 45% mais caros do que na metrópole e insegurança recorde. Os guianenses compartilham o sentimento de que Paris os despreza. Embora diversificadas, as reivindicações apontam todas para uma mesma constatação: um descompromisso do Estado, enquanto a população guianense cresce a um ritmo muito superior ao de todos os outros departamentos. A população passou de 115 mil habitantes, em 1990, para mais de 250 mil atualmente.1 Todas as áreas dos serviços públicos carecem de recursos: saúde, educação, segurança. E os horizontes de desenvolvimento parecem sombrios: a cooperação econômica com os vizinhos (Brasil e Suriname) é quase inexistente, ao passo que persiste uma espécie de economia de balcão, artificial e cativa, que sofre de um déficit crônico de investimento. Esse desespero explica a forte mobilização não apenas de todas as classes sociais, mas também de todo o mosaico de povos da Guiana Francesa. (E.S.)

1 “Recensement de la population en Guyane” [Censo da População da Guiana Francesa], Insee Flash Guyane, n.56, Caiena, 2 jan. 2017.

{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 118 – maio de 2017}

 

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